uma caixa d’água só e 3 coelhos fumegantes
[ * * * aviso de SPOILER * * * ]
a maratona de cinema do fim de semana (3 dias em PoA depois de quase 2 meses sem cinema em Pelotas no verão!), que incluiu Os descendentes, Os homens que não amavam as mulheres - versão do Fincher e Sherlock Holmes II, terminou ontem com 2 COELHOS, o filme brasileiro que tá rodando nos cinemas neste mês. depois de não conseguir ver o filme no Cinemark do Bourbon da Ipiranga, em PoA, porque o cinema estava sem ar condicionado e eles não fariam a projeção, a saída acabou sendo adiar a viagem de volta pra Pelotas e ver 2 Coelhos em Canoas, no Cinemark também, e tardíssimo. o bonus track do dia foi que a sala do filme em Canoas também estava sem ar condicionado. mas eles projetaram mesmo assim, e eu, que tinha que ver o filme de qualquer jeito, não tive escolha.
por que eu TINHA que ver? bom, a) porque eu dou aula pra dois cursos de Design e dois cursos de Cinema; b) porque ministro a disciplina de direção de arte pro curso de animação; c) porque o filme é uma mistura muito inusitada (no Brasil) de motion design, animação, efeitos de produção e pós-produção e direção de arte extremamente interessantes; d) todas as alternativas anteriores PLUS eu gostar de cinema brasileiro e do gênero desse filme. então eu fui pro cinema esperando ver isso:

e as coisas relacionadas que eu vi no trailer. pensei que fosse ver algo parecido com Sucker Punch.
[ o trailer tem Led tocando, mas não tem nenhuma música deles na trilha sonora ]
bom. eu fui e 2 COELHOS não é isso. e nem o que o poster pinta.

pelo cartaz, um filme super pop com muita explosão, bem próximo dos filmes norte-americanos de ação, só que com aquele tempero brasileiro espertinho. um filme que tem muitos efeitos especiais, como diz o diretor, “físicos”.
pelo logo do filme, já se entendia que a direção de arte seria no mesmo tom: espertinha.

mas eu me enganei. 2 COELHOS tem uma complexidade bem maior. a crítica inicial é que o que parece vender o filme [ o tremendo trabalho cuidadoso de motion design ] é o que é mais exagerado no início. uma cena atrás da outra com animações. e a animação deixa de ser um bom design pra ser uma daquelas coisas exageradas dos designs pós-modernos que estão na linha tênue entre estética e apenas pura poluição. estética da poluição é uma coisa muito delicada. neste caso, ficou demais. as in over. as in too much. e o que seria meu alívio também é um defeito do filme: a tônica do motion design na primeira sílaba de 2 COELHOS se perde logo depois de acabada a primeira partezinha, de apresentação. alguns podem argumentar que ok, uma apresentação é um sumário do filme todo. meu argumento é: fica porco. menos design de pós-produção ali e o filme estaria com o sumário garantido e ao mesmo tempo não daria uma impressão de que tava demais [ o que dá a idéia de que ou o filme ia ser todo assim, cansativo e poluído, ou que tendo muito motion design no início e logo depois parando, a apresentação era apenas um chamariz, no melhor estilo “só tivemos grana pra aplicar isso no início” ]. e a gente sabe que direção de arte tem que funcionar em sintonia.
a boa notícia é que a partir do over de motion design de início, o filme envereda por um caminho bem equilibrado. a estética consegue trabalhar de forma muito boa com a referência dos quadrinhos, dos videogames, da cultura pop, da fotografia e dos filmes do gênero de fora do país.
a DIREÇÃO DE ARTE do filme se divide em algumas estéticas que aí sim são a mistura pós-moderna equilibrada de estilos que aparentemente não teriam como conviver entre si. algo que dá pra se chamar de estética pop, mas que tem estilos bem marcados articulando um todo hiper-real. de início, o motion design e a animação, que ora estão trabalhando no plano da imagem toda e ora no detalhe sobre as imagens. começa mais exagerado, mas ao longo do filme toma seu devido lugar. aposto que Snatch e Clube da Luta são as referências mais importantes aqui.

tem a estética de videogame, que aparece na óbvia cena da primeira parte, que faz referência ao Gran Theft Auto, e em outras cenas de live action, especialmente as com ponto de vista FPS [ first person shooter ].

a cinematografia orquestra uma iluminação que transita entre os tons setentistas [ amarelo-esverdeados ] e oitentistas [ frios, azulados e prateados ] e a citação das estéticas da própria fotografia contemporânea, influenciada pelos aplicativos de internet e gadgets, como o Instagram, do iPhone, e o PicNik, ligado ao Flickr. daria pra dizer que a cinematografia de 2 COELHOS mistura estética hipster com cultura visual indie. a própria referência aos anos 70 e 80 é própria dessa cultura, que também é o que dá a tônica do personagem principal, um nerd pós-moderno que transita entre os joy sticks de games e as armas de fogo de verdade.


essa fluência contemporânea dos anos 70 e 80 também ganha forma nas claras e igualmente sutis citações de Tarantino. um dos bandidos ter uma espada oriental é um efeito disso. outro dos bandidos ter conhecimentos de medicina e aplicá-los ao crime é outro efeito. mas se isso pode ser uma homenagem aos filmes do autor de Kill Bill, é também uma forte influência da cultura cinematográfica das décadas de 70 e 80, fonte da própria cultura pop.
não só de Tarantino vive o estilo de 2 COELHOS. e Guy Ritchie não é só lembrado no design. a câmera slow do diretor inglês [ e não só dele, ok ] é uma das presenças fundamentais na estética aqui. não só Snatch pode ser percebido no filme de Afonso Poyart, mas também os efeitos de lenta de Jogos, trapaças e dois canos fumegantes [ o primeiro da “trilogia” de Guy Ritchie, que teria terminado com Rock n’ Rolla, filme que não consegue fazer parte do trio nem com muito esforço de fã ]:
mas a soma de Tarantino e Ritchie é evidente também no ROTEIRO, que é um não-linear com um narrador onipresente que constrói a história segundo a lógica do fluxo de pensamento. a estrutura básica fica por conta do “estou aqui, e sou fulano” + “agora vocês vão saber como cheguei a esta situação” + “este é fulano, mas pra saber a história dele, primeiro você precisa conhecer a história de ciclano”. a narrativa não linear podia ser um expediente óbvio aqui, mas Poyart, também roteirista, usa essa montagem com propriedade. com a propriedade de quem sabe o que é necessário pra fazer o filme como se quer.
os diálogos são naturais mas ao mesmo tempo minuciosamente bem construídos. e isso não se faz sem atores que consigam dizer as coisas com realismo. os bandidos são um misto de caricatura com a vida como ela é.
alguns dos momentos mais engraçados ficam por conta de falas de um dos coadjuvantes que menos aparece. isso dá a tônica de humor negro que cai muito bem em 2 COELHOS.
o Caco Ciocler fala um pouco aqui sobre esse humor negro. e o humor negro é muito característico dos filmes ingleses que trabalham com a estética ação+violência [ tipo Snatch e todos os outros filmes do Guy Ritchie ] e meio proibido silenciosamente no cinema brasileiro. por que? por causa da herança moral do Glauber, que criou uma cultura de que a estética da violência no cinema brasileiro deveria servir a um ideal [ bolchevique, aliás ] de “pedagogia” contra os colonizadores e diante da fome, da miséria, da tragédia humana brasileira. por causa de uma culpa meio socialista-soviética de país capitalista-mas-não-tanto que estabeleceu uma estética para o cinema brasileiro que é, também, denuncista. nada de ruim até aqui, ou eu estaria desdizendo minha dissertação de mestrado [ gosto de Glauber, gosto de estética da fome, gosto de denuncismo ].
a estética do cinema brasileiro faz parte duma cultura denuncista que é fruto de uma história recente [ incluindo ditadura militar e um recente crescimento da favelização no país ], de uma cinematografia muito próxima do documentário e de uma relação muito forte que as esferas de produção alternativas [ no Brasil, o cinema está dentro de uma esfera de produção alternativa, bem ao contrário do cinema norte-americano ] têm com o pensamento socialista e com o compromisso de mostrar a dor e a miséria. é preciso que se entenda que a cultura cinematográfica brasileira é ligada a uma cultura estética brasileira maior e a uma questão histórica e social ainda maior, e que dizer que filme brasileiro é um saco porque só fala de miséria [ com uma franca comparação, explícita ou implícita, com a produção dos EUA, que não pode ser feita porque os parâmetros não são os mesmos ] é não compreender essa lógica.
pois bem: o humor negro proibido no cinema brasileiro dá ao 2 COELHOS uma de suas melhores características: a ousadia de arriscar a simpatia do público pelo bem de uma coisa maior, que é ser inteligente. os atores coadjuvantes agradecem, por sinal. cenas e diálogos memoráveis estão totalmente apoiados num humor que tem a auto-confiança da comédia britânica, mas ainda assim a cara do Brasil.
mas o filme é só violência, explosão e uma trama emaranhada tarantino-guy-ritchienesca?
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nah. tem romance também [ que comentário óbvio ]. e tem crítica também [ comentário piegas ]. só que de uma forma que nega o caminho clichê. o roteiro tem a construção emaranhada, mas seus requintes estão nos dois coelhos. e quando um dos coelhos não morre na primeira cajadada, a virada final, de uma delicadeza adorável, faz surgir o caminho terceiro, em potência durante o filme todo.
Edgar trama um plano pra matar DOIS COELHOS COM UMA CAIXA D’ÁGUA SÓ. o que vai se desenhando conforme o filme vai acabando é que um dos coelhos é fazer justiça, algo que o “herói” que é anti-herói de fato diz logo no início do filme e que parece estranho quando percebemos que ele mesmo saiu ganhando com a noção bizarra que se tem de justiça no Brasil. é um herói, o Edgar, porque ele vai se sacrificar por um bem maior. e pelo bem de quem ele destruiu a vida. o segundo coelho é “sumir e ser feliz” com a mulher que ele ama.

a Júlia, que gosta de mar, de vento, de mão de homem. nada de requinte, se pensarmos que todos eles estão atolados na falcatrua até o pescoço e que entre crimes “menores” e grandes sacanagens, todos têm o rabo preso com a justiça. ou acabam tendo. nada de requinte, se pensarmos o clichê tão grande que é o herói fazer tudo pra ser feliz com a mulher dele. mas aproveitar os clichês é coisa pra poucos. os clichês têm o seu lugar nas narrativas, o problema é que nem todos sabem usar.
esse é o primeiro grande requinte do roteiro de 2 COELHOS, que usa os clichês da forma mais bem articulada possível. o último requinte fica por conta do híbrido dos dois coelhos. justiça é feita [ numa sinfonia de corruptos e bandidos recebendo o fim que teoricamente merecem, o único fim possível, considerando que aqui no país é preciso a catarse do cinema onde os vilões morrem explodidos pra que superemos a liberdade de todos os grandes criminosos, garantida pela impunidade geral para os que não são os miseráveis e párias ]. e, com ela, a primeira vítima ganha o consolo que redimiria Edgar. isso nos faz acreditar que os dois coelhos eram a justiça e a reparação do erro cometido contra o inocente [ Edgar é responsável pela morte da mulher e do filho de 7 anos do professor, a quem acaba recompensando no final ].
mas em dado momento, se percebe que um coelho era a justiça - que incluía uma reparação virtual para o professor, que não lhe traria a família de volta, mas cumpriria com os ideais de um mestre que plantou em Edgar a revolta contra a corrupção; e o outro coelho era “ser feliz com a mulher” bem longe do Brasil e com a redenção pelo crime de arrancar a família do professor.
o que o final nos reserva [ * * * SPOILER, FRONT AND AHEAD! * * * ] é que a vida pode ter um fim surpreendente. Edgar é um narrador póstumo. quando mata dois coelhos com uma caixa d’água só, faz sua saída triunfal de cena, terminando seu sacrifício de herói e a um só tempo fazendo justiça e fazendo justiça. primeiro, ele faz justiça contra a bandidagem e a corrupção (ele incluso, porque morrendo, junto com o pai, termina a obra de apagar todos os bandidos envolvidos na história, desde o mais simpático até o mais cruel). depois, ele faz a justiça da reparação pessoal do próprio erro, dando ao professor uma família que seria a sua. é como se Edgar dissesse: “tirei tua mulher e filho, te dou minha mulher e filha em troca”. Júlia também deveria ter morrido, é verdade, pela lógica do coelho da justiça. aí entra mais um clichê do cinema de todos os tempos: uma mulher com um filho na barriga é uma mulher inocentável. porque nela está a pura inocência, representada metafórica e literalmente pela criança. o professor, afinal, não é perfeito, já que chega a matar alguém no filme, ainda que um criminoso. essa é outra das lógicas que costuram o filme. difícil de aceitar. mas é. inocentes, apenas a mulher do professor, o filho morto e a filha de Edgar que será criada pelo professor. nem o pai de Edgar está limpo, já que fez falcatrua pra que seu filho saísse solto do julgamento por homicídio duplo culposo [ um crime “menor” pra salvar um filho? ]. todos cometem algum delito. uns são maiores, outros têm consequências mais nefastas, outros, ainda, quase nem contam no acerto de contas, mas estão ali. 2 COELHOS é um filme que critica a justiça no Brasil assim como a moral humana. desde o deputado que começa honesto e se corrompe até a mulher que até gostava do marido traído, passando por todas as nuances de culpa e inocência de que se tem idéia no catálogo das humanidades. dá pra julgar alguém? os bandidos podem ser os mocinhos. e os mocinhos, nem tão mocinhos assim. e a caixa d’água nem é bem uma caixa d’água. pode ser também um monte de balões cheios de gasolina. não tem carro que seja blindado nessa trama.
